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17 de mar. de 2009


Entre dois mundos


Pra começo de conversa entre Patativa do Assaré e Carlos Drummond de Andrade,


" Carlos Drummond de Andrade , poeta da poesia em prosa. Aquilo lá é poesia? Eu chamo aquilo de prosa. Porque ele não tem medida, não tem sílaba predominante, não tem tônica e além disso não tem rima, que é a beleza da poesia é a rima, entelaçada uma com as outras, viu?"


Patativa por ele mesmo.



Digo
e não peço
segredo




O MENINO ANTONIO



A minha infância foi uma infância boa e os garotos são inocentes e de tudo eles gostam, não é? E assim, passei minha infância com a lembrança que eu ainda tenho, aquelas brincadeiras, aquela vida de ingenuidade, a inocência da criança, de que no mundo só há coisa boa.
Boa, pura e bela, que é o mundo da criança. Porque ali, tudo é lindo. Tudo é belo. A criança não peca. Aquilo que o adulto faz e peca, a criança fazendo não é.
Minha infância foi lá na Serra de Santa na. O relato da minha infância é uma coisa um pouco penosa, porque a minha infância foi uma infância de trabalho e quanta coisa tem. Eu comecei a trabalhar, pequeno mesmo, trabalhando de roça. Meu pai, Pedro Gonçalves da Silva, ele vivia em extrema pobreza e, quando morreu, nos deixou com esse diminuto terreno lá no sítio
Serra de Santa na, onde eu fiquei com os meus irmãos e a minha mãe, trabalhando de roça, desde a minha infância.
Nas horas vagas eu brincava de um instrumento que chamam bodoque,
você sabe? Que atirava assim. E também de carrapeta, que é um troço que a gente solta assim e ele fica rodando acolá, viu? E também a brincadeira que quase todo garoto camponês também usa, que é o cavalo de pau. É uma hastezinha de madeira, que o camarada põe assim entre as pernas, pega aqui num cordãozinho amarrado e ele sai correndo. Ele chama cavalo. Cavalo de pau, viu? E assim eram minhas brincadeiras nas horas vagas. Tive uma infância como os outros garotos também têm, com essas brincadeiras de criança. E foi assim.



No verdô da minha idade
mode acalentá meu choro
minha vovó de bondade
falava em grandes tesôro
era históra de reinado
prencesa, prinspe incantado
com feiticêra e condão
essas históra ingraçada
tá selada e carimbada
dentro do meu coração. [...]
Mas porém eu sinto e vejo
que a grande sodade minha
não é só de históra e bejo
da querida vovozinha
demenhanzinha bem cedo
sodade dos meus brinquedo
meu bodoque e meu bornó
o meu cavalo de pau
meu pinhão, meu berimbau
e a minha carça cotó.


O mundo da criança é um mundo puro, belo, lindo, viu? Porque aquilo ali a criança, quando está estudando e lendo aquilo com prazer, tá acreditando em tudo, viu? Não sabe se aquilo é uma criação, ela acha que ela está apresentando uma coisa real.

Patativa do Assaré , Digo e não peço segredo.São Paulo:Escrituras Editora,2001,p.15-16,